Encurralado (1971) – Spielberg já apavorava desde cedo!

20 01 2009

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Reproduzo aqui o belo texto do colega Murilo, editor do blog State of Kubrick, sobre um dos filmes mais cinematográficos de Spielberg. Filme este que abriu os olhos do mundo para um inegável talento no começo de sua carreira:

Encurralado (1971), primeiro filme dirigido por Steven Spielberg, nos passa a grata sensação do que seria um filme de suspense na sua essência, sem qualquer tipo de subterfúgio que nos fizesse desviar o olhar, sem nenhum excesso, só a polpa, o miolo, a gema. O filme é puro combustível, praticamente uma hora e meia de perseguição entre um caminhão-tanque e um Plymouth Valiant vermelho, de um pacato californiano interpretado brilhantemente por Dennis Weaver.

Duel, no seu título original, é uma obra que evidencia o talento de um sujeito com senso de ritmo extraordinário, em seu primeiro longa-metragem (inicialmente feito para TV, mas depois expandido para lançamento comercial nos cinemas). Esqueçamos do Spielberg açucarado, onde não há bomba nuclear que destrua uma família: aqui, Spielberg mostra a que veio num longa o qual Hitchcock certamente aplaudiu de pé. Este é o filme minimalista de Spielberg, de estrutura mais radical, sem que isso signifique, de maneira alguma, um filme menor, menos instigante. Arrisco dizer que este talvez seja o melhor Spielberg, ao menos o mais empolgante nos sentidos técnico e narrativo, principalmente quanto à decupagem e montagem de som.

O filme, logo de cara, se inicia com diversos planos subjetivos belíssimos do carro em movimento; não há qualquer tipo de introdução de personagem, apenas o motor roncando e veículo saindo da garagem. Spielberg se utiliza, nos vinte minutos iniciais, apenas do som diegético do rádio, e as narrações dos programas já funcionam como indícios da tensão que está por vir. E que maravilha é ver um diretor produzindo suspense com uma única ultrapassagem, ou mesmo quando enquadra o protagonista envolvido numa “bolha” que se forma ao seu redor pela tampa aberta de uma máquina de lavar, no momento em que telefona para a esposa de um posto de gasolina, mostrando o quanto ele está “encarcerado”, mesmo dirigindo numa pista de alta velocidade praticamente vazia, livre.

É de fato uma pérola, um low budget movie filmado em apenas treze dias, o que atesta a perícia de um diretor que estava apenas em começo de carreira, ainda sem o elevado espírito paternal politicamente correto com o qual os seus filmes posteriores viriam impregnados, muitas vezes de maneira exagerada e piegas. Mas está aí a prova inegável do trabalho de um mestre, acima de tudo, do entretenimento. O motorista que nunca vemos, a cena-chave no Chuck´s Café, as narrações em off, são todos recursos usados com a perícia e o ímpeto juvenil do então futuro rei-midas de Hollywood, que sabe como ninguém se comunicar com as massas e fazê-las sair de uma sessão de um filme seu satisfeitas como uma criança que acabou de ganhar o mais vistoso e colorido brinquedo.

 

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