CIDADÃO KANE (1941)

28 02 2009

orson

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941). Quem já não se cansou de ver este filme na lista dos melhores filmes de todos os tempos ou frequentemente votado como “o melhor filme já feito”? Lógico que isso não existe. Saber se tal ou qual é melhor na esfera artística é tão subjetivo como perguntar se eu gosto de um prato de comida que você detesta. Agora, num ponto, todo mundo que é apaixonado por cinema concorda (ou pelo menos deveria): Cidadão Kane é um dos filmes mais importantes e influentes da história cinematográfica.

Kane já nasceu ambicioso desde sua concepção e somente um gênio shakesperiano como Orson Welles (em seu primeiro filme) poderia executá-lo com ousadia e sem medo de errar. Contar o que foi (e como foi) a vida de alguém desde o seu começo até o seu fim poderia ser uma tarefa chata e pouco prazerosa, tanto para quem faz como para quem assiste.

É lógico que Welles não era bobo nem nada e se aproximou dos melhores profissionais de seu tempo. Gente como o fotográfo Gregg Tolland, que filmou os tetos e usou o plano de fundo inserido no contexto da história como nunca antes feito; e Bernard Hermann, um dos maiores compositores de trilhas sonoras para o cinema e o preferido de Hitchcock, com quem viria a trabalhar em diversos filmes do mestre inglês. Temos também um excelente roteiro de Herman J. Mankiewickz, em parceria com Welles, e que até hoje é motivo de polêmica se a autoria de grande parte da história é sua ou não.

Enfim, tinha tudo para dar certo e deu. Além disso, Welles reuniu amigos de seu círculo teatral e muitos atores atuavam pela primeira vez na telona, o que contribuiu imensamente para as performances despojadas e divertidas do clássico – um filme com a ingrata missão de contar a história de um personagem real e poderoso não poderia ter muita gente com o rabo preso.

Este texto não pretende se ater às diversas polêmicas batidas do filme e vai direto ao ponto: Charles Foster Kane, o Cidadão Kane, foi baseado na figura do magnata William Randolph Hearst, dono de um império jornalístico imenso que controlava as opiniões das massas de forma quase ditatorial. A única coisa engraçada e interessante a respeito de Hearst é que um dos motivos de ele ter se enfurecido, logo após a exibição do filme, foi o uso da palavra Rosebud, o grande mistério do clássico. No longa, vários jornalistas tentam descobrir o sentido dessa palavra proferida por Kane antes de morrer. Sendo assim, entrevistam todos aqueles que conheceram o magnata intimamente durante sua vida.

Agora adivinhe o porquê desse estardalhaço todo causado por Hearst? Rosebud (que em português significa “botão de rosa”) era o modo carinhoso como Hearst chamava a parte íntima de sua mulher. Além de não ter gostado do modo como foi biografado, Hearst destruiu cópias do filme e difamou o mesmo em seus jornais, o que causou uma má bilheteria nos cinemas. Sim, Hearst serviu de inspiração, mas é apenas um personagem como todos os demais e a busca de Orson Welles é muito mais profunda, e não vale a pena ver e analisar o filme por sua intriga e fofoca.

Várias sequências são antológicas e fica difícil citar todas, mas desde a abertura, em que o belo e sinistro tema de Hermann se sobressai, nós entendemos como a platéia da época testemunhou algo diferente. A câmera se aproxima e atravessa as grades do império Xanadu (ou seria um presídio voluntário?) pouco a pouco até o momento em que a luz da janela do castelo se apaga e a palavra Rosebud é sussurrada, ecoando de um modo surreal e seguido pelo close-up da mão, que solta a bola de neve que se espatifa no chão, culminando com a morte de Kane.

Nunca me esqueci desse começo invertido, pois o personagem principal do filme morre na abertura e ao longo do filme somos obrigados a conhecê-lo via flashback, um recurso usado à exaustão hoje em dia. O mais interessante é que os flasbacks são inseridos de acordo com a visão de diversos personagens – são vários pontos de vista, o que enriquece o filme de maneira ímpar.

Cidadão Kane é exemplar por sua contribuição na inovação técnica em diversos setores, mas nada disso seria tão importante se não fosse acompanhado por uma boa história, e muito bem contada por sinal. É notável a boa vontade de Welles de colocar a obra acima de tudo e de todos. E ainda que o filme sofra em alguns momentos por aquela “consciência de si mesmo”, ele se supera pela dedicação, carinho e esforço de Welles e seus amigos.

Mas, no fim, o que é Rosebud? Numa resposta fácil, trata-se do trenó de Kane, símbolo que o faz lembrar de sua alegre infância antes de se separar de sua mãe para assumir o império material a que estava destinado. Mas Rosebud é muito mais do que isso. A palavra representa o único momento feliz na vida de um homem, que teve tudo e não teve nada, pois não soube transformar seus recursos em enriquecimento espiritual. Kane não soube viver a vida de um modo menos agressivo e capitalista.

Rosebud é a busca do tempo perdido a que todos estamos submetidos – de ter feito “de tudo” o que Kane queria e mesmo assim não ter conseguido encontrar a verdadeira grandeza que tanto anseava. É  aquela velha e eterna insatisfação da humanidade. No final, o que parece restar no filme é esse remorso todo melancólico. Até agora, sem muito esforço de memória, ainda consigo escutar o fogo crepitar e o trenó queimando na grande fogueira. E as belas notas musicais de Hermann subindo e descendo enquanto a câmera se despede naquele plano final soturno e majestoso.

(Publicado originalmente no blog Hollywoodiano em 22/10/08, do grande Otávio Almeida)

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16 responses

28 02 2009
Wally

Não é o melhor filme de todos os tempos, mas caramba, é um dos melhores sem sombra de dúvida! O primor técnico e a visionária direção é um deleite à parte do roteiro denso e específico. Um belo filme.

Ciao!

28 02 2009
Anderson Siqueira

Este filme é estupendo e precussor no quesito técnica e narrativa. Uma obra cinematográfica que mesmo antiga, é bastante atual. A composição direção, roteiro e técnica é perfeita e harmoniosa, reflentindo o resultado na tela. Um filme único, inesquecível e obrigatório.
=)

28 02 2009
Alecs

ótimo filme! Me deu vontade de ver de novo, belo texto!

28 02 2009
Alecs

acesse também o http://www.cinefilia.net/
teu blog já tá linkado no Rosebud!

28 02 2009
Kau

Depois deste texto impressionante, digo adeus! Hahahahahahahaha. Fico com vergonha de escrever no blog quando leio algo tão bem feito como o seu texto, Denis.

Masssss, Cidadão Kane, mesmo sendo impressionante, não entra entre os cinco melhores já feitos na minha opinião.

Abs!

28 02 2009
Kamila

Me lembro desse seu excelente texto publicado no Hollywoodiano. Vou repetir um pouco o que disse naquela época. Acho que o que mata “Cidadão Kane” é que a gente assiste ao filme com uma expectativa tão alta e, no meu caso, fiquei totalmente decepcionada quando vi o longa – exceto pela parte técnica, da linguagem cinematográfica, acho esta obra um tanto comum…

1 03 2009
Louro

Grande texto Denis, não acretido que ainda nºao pude ver este filme, mas desta semana não pode passar. Pelo que tenho ouvido dizer so pode ser um grande filme.

abs!

1 03 2009
Alex Gonçalves

Denis, me recordo deste texto no Hollywoodiano, mas não o li por algum motivo. Fazendo isto agora, eu lhe parabenizo, pois escrever sobre um texto de tamanha grandiosidade não é uma tarefa fácil. Eu sabia sobre o fracasso na ocasião de lançamento do longa, mas confesso que só fiquei sabendo a circunstância agora. E compartilho as mesmas palavras ao qual você escreveu no penúltimo e último parágrafo de seu texto.

Em tempo: é verdade que Spielberg comprou o trenó do filme?

Abraços!

2 03 2009
Murilo

Fala Denis,

Desculpa a demora pra te responder, mas de fato amo o Cidadão Kane, inclusive escrevi um texto há um bom tempo atrás, tem uns 5 anos acho, lá no e-pipoca, na seção dos comentários da ficha do filme. Mas meu Welles preferido, se fosse possível classificar grandes clássicos, ainda é A Marca da Maldade, outra obra magistral dele. E o Welles arrebenta ainda como ator. O cara era foda. E o plano-sequência inicial? Coisa de louco.

2 03 2009
O Cara da Locadora

É um filme fantástico tanto na sua concepção cinematógrafica revolucionária como por tratar de um assunto atual até hoje, a ditadura da mídia… Todo mundo aqui já deve ter ouvido falar mas eu recomendo sempre o documentário “Muito além do Cidadão Kane” quando a BBC de Londres compara a Globo do Brasil com o império jornalístico do Kane, mas muito piorada… Chico Buarque, no filme, diz que a Globo é o Cidadão Kane mas sem o Rosebud, ou seja, sem humanidade… Forte, não? rs…

2 03 2009
Otavio Almeida

Esse filme aí que dizem que é o melhor de todos os tempos é um dos melhores de todos os tempos. Mas não o melhor. Ao menos, pra mim. Sei que vc é muito fã, meu amigo, mas gosto ainda mais de A MARCA DA MALDADE.

Abs!

2 03 2009
Otavio Almeida

Ah! Valeu, grande Denis!

4 03 2009
Sérgio Déda

Clássico absoluto.

Não acredito que seja o melhor de todos os tempos, mas com certeza entendo pq ganhou esse posto.

8 03 2009
• Cleber!

Tava quase vendo, mais de repente perdi a vontade que sempre tive!

31 03 2009
André

Aqui está uma grande vergonha da minha vida de amante da Sétima Arte, eu vi Cidadão Kane em VHS com meu Pai quando eu tinha uns 12 anos, e sinceramente achei chatíssimo, terrível… mas também eu era apenas um piá que ainda preferia jogar bola na rua do que entender o que era cinema.

Tenho este débito com o cinema, ver Cidadão Kane. E digo aqui, verei ainda em Abril! Preciso tomar vergonha na cara.

Abraços

28 12 2009
Tv Globo e “BRASIL: ALÉM DO CIDADÃO KANE” (veja aqui o documentário produzido para a tv britânica Channel 4) « TORRELESTE: olhares sobre o mundo

[…] diversos jornais e  revistas,  além de várias cadeias de rádio e uma produtora de cinema (a primeira dessas coincidências é a própria palavra Rosebud, em português “botão de rosa”, …). […]

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