Especial: Batman, o Cavaleiro das Trevas

12 03 2009

thedk

Introdução:

Batman (1989) e Batman Returns (1992), de Tim Burton,  conseguiram recriar o universo particular do personagem, sendo ambos bem sucedidos principalmente na criação de Gotham City e seu clima “dark”, cuja marca é característica desse diretor em seus diversos filmes. Mesmo assim, todos os fãs de Batman sempre reclamaram que o seu personagem principal nunca fora bem representado, pois os vilões sempre chamavam mais a atenção do que o seu herói.

Sai Tim Burton e entra Joel Schumacher, que após a regular adaptação Batman Forever (1995),  dois anos depois retorna com o nefasto Batman & Robin (1997), onde conseguiu enterrar a imagem de um dos maiores personagens de histórias em quadrinhos e uma das mais rentáveis franquias da empresa Warner Bros, algo que só mudaria 8 anos mais tarde, com Batman Begins.

Coube ao diretor inglês Christopher Nolan o enorme desafio  ao aceitar a direção de Batman Begins (2005), principalmente porque a expectativa e cobrança era enorme após o último fracasso. Pode-se dizer que ele excedeu todas as espectativas, pois Batman Begins é o primeiro Batman (Christian Bale) convincente e realista. Um dos charmes desse herói atormentado é o mistério que o rodeia e também por se tratar de um ser humano sem super-poderes, à exceção de seu árduo treinamento nas artes marciais  e habilidade excepcional como detetive e conhecimento de diversas áreas, que são mostrados com grande fidelidade nesse filme. Além de grandes cenas de ação e ótimos efeitos especiais, o foco em Batman Begins é a tragédia pessoal de Batman e seus primeiros passos no combate ao crime organizado e todos os seus esforços de impedir a destruição de Gotham City, maquinada pelo megalomaníaco Ra´s Al Ghul (Liam Neson), um de seus principais mestres no começo do filme.

O importante também foi mostrar Batman como um vigilante com um código moral restrito, que sempre preza a vida alheia, mesmo a do mais terrível oponente, e nunca mata deliberadamente. O único inimigo que tira Batman fora do sério é o demente Coringa, que é a deixa no final desse filme, pois na cena entre Batman e o Sargento Gordon (que só viria a ser promovido a Comissário no próximo filme) o mesmo entrega uma carta de baralho com a figura do Coringa, dando a entender o que a continuação nos reservaria…

 

O Cavaleiro das Trevas (*contém spoilers)

No segundo filme dirigido por Christopher Nolan nem mesmo o maior batmaníaco poderia esperar algo tão brilhante e contundente. Ele não só fez o melhor filme sobre o personagem, como o elevou à categoria de obra de arte.

Nunca no cinema um personagem em quadrinhos recebeu tamanha densidade em sua história e diálogos tão brilhantes (roteiro este escrito pelo diretor com a colaboração de seu irmão, Jonathan Nolan), além de contar com uma gama de atores excepcionais, todos excelentes em seus respectivos papéis.

Heth Ledger está sensacional e demoníaco como O Coringa, mas a força do filme não provêm apenas de sua persona magnética, mas sim do excelente roteiro e de como são trabalhados todos os elementos dos filmes e a relação conflituosa entre os principais personagens: Batman, Coringa, Harvey Dent (Duas-Caras), o agora Comissário Gordon e Rachel Dawes, a ex-namorada de Batman e que agora tem um relacionamento mais sério – e possível – com Harvey Dent (Aaron Eckdhart).

O filme trata de assuntos sérios como comportamento social, ética, heroísmo, corrupção e outros com incrível atualidade e realismo. Ao contrário dos blockbusters atuais, não é apenas uma visão simplista do bem contra o mal: há os diversos lados de uma mesma moeda e paradoxos em abundância, tudo feito com  nuance. Lógico,  a maioria dessas questões são suscitadas pelas ações e desvarios provocados pelo Coringa, que se auto-denomina “um agente do caos” e tem a missão de detonar (em ambos os sentidos) o físico e emocional da população e atingir onde o estrago for o maior  possível.

Detendo-se um pouco na compreensão desse personagem, não há como deixar de admirá-lo, pois o Coringa sempre está, senão a um, mas a dois, três, quatro passos à frente de todos. Seus planos e idéias são tão miraculosamente elaborados, pois prevê com antecedência todos os desdobramentos possíveis. Apesar dele afirmar numa brilhante cena no hospital com Harvey Dent que não planeja nada adiantado, sabemos que ele está mentindo. Aliás, chamá-lo de mentiroso chega a ser um termo vulgar, pois se trata de um mestre na arte da falsa impressão, pois engana a todos com tamanha facilidade, que parece enganar a si mesmo. Pegue, por exemplo, as duas cenas em que ele explica a origem de suas cicatrizes. Para cada situação há uma explicação diferente – e provavelmente inventada no momento – de como ele conseguiu suas cicatrizes. Sua mente pertubada é tão complexa, que na verdade nem ele próprio deve saber a origem de toda a sua maldade.

É um personagem pertubador, e quem realmente quiser analisar com frieza a gênese desse personagem corre o risco de  flertar com a própria loucura, pois ele é o mal absoluto em sua essência e os termos remorso e arrependimento não existem em seu vocabulário. Uma das grandes sacadas do filme é não tentar uma explicação certinha sobre a origem desse vilão, pois seria como perguntar de onde surge todo o mal. É uma pergunta sem resposta desde o início dos tempos, o que incomoda e intriga ainda mais o espectador por nos deixar no terreno do impalpável. A sua frase-chave para Batman é aquela dentro da sala de interrogatório, onde o Coringa mostra como as leis de nosso mundo são frágeis e que não há como querer controlar as coisas do nosso jeito, pois isso é impossível. Coringa reconhece em Batman uma parte de si mesmo, que não pode ser arrancada, pois são ambos são frutos de uma sociedade doentia. Lembre-se do momento em que ele diz para Batman a fala memorável: – Você me completa. Nesse momento, percebemos que Coringa é um personagem muito mais consciente de sua condição do que Batman, que enfurecido com tal possibilidade, rejeita sua semelhança com seu arqui-inimigo e parte para a violência brutal.

Uma das várias preciosidades do filme é a transformação do promotor público Harvey Dent no vilão Duas-Caras. O ator encarregado, Aaron Eckhardt, assumiu com grande propriedade a  dimensão da personagem mais trágica do filme, que à princípio acreditava que o mal podia ser impedido pelas nossas ações.

Harvey Dent seria aquele que traria paz e justiça para a cidade sem a necessidade de se esconder sob uma máscara e com o amparo da lei. Porém, depois se torna um fatalista onde as coisas acontecem ao acaso e podem ser decididas pelo simples ato de jogar uma moeda ao alto e deixar o destino escolher. A sua perfomance é convincente e chega a dar pena a perda de sua fé na vida humana após a via-crucis tortuosa e dolorida que sofre.

Outra bela cena, quase no final do filme, é a luta entre Batman e Coringa nos andaimes, onde o Coringa é salvo por Batman de uma queda, mostrando ao vilão que seu código de honra e respeito à vida nunca é quebrado, mesmo numa situação onde Batman teria mil motivos para desejar a morte do seu inimigo. A câmera dá um elegante giro de 180 graus ( em que o Coringa fica pendurado de ponta cabeça) e daqui sai mais uma pérola dele:

– É isso que acontece quando uma força incontrolável encontra um objeto irremovível.

A cena final do filme entre Batman e o comissário Gordon é espetacular. Na tentativa de levar uma vida normal e querer se livrar da alcunha de herói-vigilante – algo que ele tenta durante a maior parte do filme com a possibilidade de transformar Harvey Dent no “cavaleiro branco” de Gotham – o contrário acontece.

Num ato estóico, Batman assume para si o fardo de carregar crimes não cometidos por ele para o bem da população de Gotham, que precisava acreditar ainda existir o bem entre nós.  Ali nasce o verdadeiro herói, o mais completo, aquele que abdica de sua vida pessoal por um bem maior. Como bem colocado pelo Comissário Gordon no final do filme:

Because he’s the hero Gotham deserves, but not the one it needs right now. So we’ll hunt him because he can take it. Because he’s not our hero. He’s a silent guardian, a watchful protector. A dark knight”.

Batman, resignado, aceita sua missão amarga que durará por muitos e muitos anos… E se depender de seus fãs, não acabará nunca.

 

PS.: Como muitos devem saber, esse novo Batman se trata de uma trilogia e muitas dúvidas surgem sobre o futuro da mesma: como manter o mesmo padrão após esse grande trabalho? Manter o Coringa como vilão no terceiro filme? Mesmo após a morte de Heath Ledger, não teria alguém à altura para fazer o mesmo papel? Acrescentar ou tentar novos vilões? Como criar problemas e desafios tão interessantes quanto para Batman? São perguntas que com certeza já passam pela cabeça do diretor e produtores do filme. Acho muito difícil ele conseguir novamente colocar tantos dilemas morais com a mesma intensidade e destreza, mas torço que ele consiga fechar a trilogia com chave de ouro. Porém, com certeza, será o desafio mais difícil de sua já brilhante carreira. Good Luck!

 

joker-poster

Anúncios

Ações

Information

15 responses

12 03 2009
Kau

Denis, que texto inspirado hein???

Bom… vc não leu minha análise sobre A Realidade Fatástica, né? Nela eu exponho algumas coisas que me incomodam MUITO no cinema. Uma delas é misturar o real com o fantástico. Peguemos o próprio Batman (o qual tb foi exemplo no meu texto): ele é um homem sem nenhum distúrbio genético (como o Homem-Aranha), concorda?! Mas no entando, ele faz tantas estripulias quando o Aranha. Isso, pra mim, é forçado. Agora peguemos O Senhor dos Anéis: um filme que pende única e exclusivamente para a fantasia. Temos o personagem de Viggo que é um humano, mas não faz nada além que um outro representante da mesma espécie não possa fazer (claro, depois de MUITO treino). Entende o ponto?! Se é real, que seja inteiramente. Se é fantasia, que seja inteiramente. Sei que entra toda a questão da tecnologia, como bem visto em Homem de Ferro. Mas ainda assim, acho tudo isso muito além do meu pensamento.

Ok, mesmo assim eu não nego que ADORO The Dark Knight. Continuo achando o Batman pouco plausível, mas a TRAMA é sensacional por conseguir tanger até a política.

Cara, nem fique com raiva… rs. Mas é oq penso :/

Abs!

12 03 2009
Denis Torres

Kau, mas esse Batman é o que mais se aproxima da realidade sem forçar a barra. Gostaria que vc me desse exemplos do que achou exagerado demais. Mesmo assim, lembre-se: é apenas um filme. E me passe o link desse seu texto, que agora eu quero ler. Abs!

12 03 2009
Armando Oliveira

Simplesmente um dos melhores e mais completos textos que li sobre esse filme. Parabéns!

12 03 2009
Louro

Texto muito bom mesmo.. Eu tambem espero que o terceiro filme seja muito bom, gostava que nesse último colocassem o Enigma, um dos inimigos mais carismáticos do Batman na BD..
Abs!

12 03 2009
Kamila

Denis, o texto está completíssimo! Parabéns!!!

Eu gosto do que Christopher Nolan fez com o personagem, a partir de “Batman Begins”, e espero que o novo filme tenha novos vilões. Não adianta insistir na figura do Coringa, até porque a interpretação do Heath Ledger para o personagem se transformou em algo definitivo. Ninguém poderá interpretar o personagem tão bem quanto ele.

13 03 2009
Pedro

Belo texto, parabéns!

Este longa é um marco. Há muitos anos adaptações de HQ’s são feitas, principalmente nesta década, virando sinônimo de blockbuster e também alguns marcos para o cinema, como recordes de público e fracassos de crítica, porém, nada, nenhum fez o que O Cavaleiro das Trevas fez. Nenhum tem na bagagem o peso calçado nos filmes da década de 70, como Taxi Driver, por exemplo e na medida certa, juntando com a ação pedida pelo público alvo. Ele é um ponto de partida para as próximas adaptações, com toda certeza.

13 03 2009
- cleber

Excelente teeexto, muito bem muito inspiradooo !
E ouso a dizer este é o melhor filme de 2008!

13 03 2009
Otavio Almeida

Caraca! Já falei tanto deste filme que vcs devem estar cansados de ouvir em O CAVALEIRO DAS TREVAS… Gostei do seu texto imenso. Feito por quem gosta do Batman e admite que foi o melhor filme de 2008. Sei os diálogos de cor e salteado, então concordo com vc… sabe disso.

Abs!

13 03 2009
Sérgio Déda

Ótimo texto, parabéns.

O filme merece realmente tamanha homenagem.

Abraços!

13 03 2009
Merece ser... Lido! Especial Batman - The Cinemaníaco | Você Viu? Eu Também!

[…] lido! A grande análise feita pelo Denis do The Cinemaníaco sobre o Batman, clique aqui e confira a visão deste personagem, que nunca foi o meu favorito, mas que depois de Batman Begins […]

13 03 2009
Andre

Excelente visão, perfeito! Espero q não se importe por ter colocado um humilde link lá no meu blog!

Abraços

15 03 2009
Kau

Denis, é coisa boba, mas que eu não engulo: o Batman é um homem normal. Naquela cena quase que inicial, onde ele salta em cima do carro, sabe?! O morcego quase que afunda o carro no chão!!! Uma pessoa normal, do porte dele, não conseguiria fazer aquilo, entende?!

O link do texto tá aqui: http://bitlofleverything.blogspot.com/2009/03/realidade-fantastica.html

Abs!

16 03 2009
Rafael Amaral

Bem legal seu blog também, ótimos textos. Sobre o link, o seu já esta no meu blog (cinemasemtempo.blogspot.com). Valeu e coloque o meu ai ok??? Abraçosss

16 03 2009
Anderson Siqueira

Sou um dos raros que preferiu “Batman Begins” a “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, mesmo com o Coringa.
=)

6 04 2009
Marcus Melo

Pra começar, ótimo texto.

Os dois primeiros Batman (de Tim Burton) são bons! Principalmente nisso que você fala, são sombrios. E foi isso que senti falta um pouco: da Gotham City sombria. Mas, como o diretor queria focar em realidade, não tem por que discutir isso.

Dark Knight é um filme excelente, emocionante e único se você pegar outros filmes de heróis.

Escrevi um texto, no meu blog, sobre minhas impressões sobre o filme, depois que o vi pela segunda vez no cinema. O engraçado é que também cito o diálogo final entre Batman e Gordon.

Espero ansioso pela continuação… e tenso também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: