Gran Torino e o cinema dos veteranos

1 04 2009

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Os Estados Unidos, nos últimos tempos, tem mostrado uma série de releituras interessantes de sua cultura e história através do cinema feito por seus veteranos. Sidney Lumet, ano passado, deu uma nova dimensão ao que conhecemos como drama familiar, ao realizar um filme vigoroso e explosivo como Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto – obra-prima que tem como um de seus pilares Albert Finney, exibindo bravura e entrega que sufocam o espectador no papel de um pai amargurado. O filme termina e você está lá, com a tristeza entalada na garganta.

Clint Eastwood, talvez o diretor mais respeitado em Hollywood, mostrou que a aposentadoria está muito longe (ainda bem) com dois filmes lançados no Brasil entre Janeiro e o presente mês de Março. A Troca nos dá uma visão fidelíssima e de planos bem abertos de alguém que tem uma relação muito estreita com um lugar (Los Angeles, anos 30) e conhece a fundo suas vicissitudes. E eis que vemos Gran Torino, mais do cinema autoral desse mestre da honestidade narrativa, estrear nos EUA e faturar mais de US$ 140 milhões – o filme de maior faturamento do eterno Dirty Harry como diretor ou ator.

Claro que dados de bilheteria não provam muita coisa, mas deixam claros que Eastwood, 78 anos, está em plena forma realizando filmes que continuam provocando tremenda empatia com a platéia, sem nunca abdicar de seu grande poder de narrar simples e intensamente. Eastwood, assim como Lumet, não só relê o cinema clássico americano, como lhe imprime uma nova configuração histórica, onde o mito do herói justiceiro há muito já virou piada.

Enquanto Lumet insere seus personagens num labirinto sufocante de sangue e morte em família, Eastwood personifica seu veterano de guerra (Walt Kowalski) vivendo sozinho num subúrbio de Detroit, e tendo de lidar, rancorosamente, com os vizinhos (imigrantes da etnia hmong) que não sabem cuidar da grama, e com os filhos, que o querem num asilo. É um retrato bem significativo de uma América desiludida (o barbeiro, vivido por John Carrol Lynch, também simboliza bem isso, na naturalidade com que ele e Walt trocam os insultos mais diversos). Eastwood tem só a seu labrador e seu lindo e estiloso Gran Torino, modelo da Ford da década de 1970, cuja coluna de direção ele instalou.

O que impressiona, além da segurança habitual de Clint na direção, é o roteiro, bem leve e engraçado na primeira hora, mas que vai mostrando com competência seus traços de melancolia ao longo do segundo e terceiro atos. Mesmo os momentos de comédia rasgada (as conversas com Thao) guardam certa amargura, que explodirá somente no final, maravilhoso e anti-apoteótico, uma sátira cruel que o diretor de Os Imperdoáveis faz de sua própria carreira. E ainda não é a última imagem desse filme muito especial, que nos brinda, ao som de uma canção onde Eastwood também coloca sua voz, com umas das melhores cenas dos anos 2000, representação muito simbólica, em vários níveis, de como a essência de uma cultura é passada de uma geração a outra. É o tipo de desfecho que, particularmente, me encheu de uma alegria incomum, e que deu vontade de encontrar Eastwood na saída do cinema e apertar sua mão.

(Publicado por Murilo, do blog StateofKubrick)

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14 responses

1 04 2009
Ramon

Perfeito! Também adorei o desfecho!

Abs!

1 04 2009
Otavio Almeida

Muito bom, hein!
Imagina se a gente encontra Clint Eastwood na rua? O que você faz? Acho que vem aquela sensação de respeito, não?

Abs!

1 04 2009
Kamila

Sinceramente, não achei Eastwood tão seguro assim na direção. Acho que a construção do personagem Walt foi MUITO bem feita. Porém, me surpreende que o Clint tenha escalado atores tão fracos para trabalhar ao seu lado, especialmente o jovem que faz Thao, que é PÉSSIMO!!!

2 04 2009
Alex Gonçalves

Muito bom o texto, embora eu ainda não tenha visto “Gran Torino”. E fico feliz pelo público estar respondendo positivamente aos filmes realizados atualmente por Clint Eastwood, seja em termos comerciais, seja na forma como os seus filmes são gravados em nossa memória. É um grande trunfo para um diretor que logo irá beirar aos 80 anos, mas tendo a sua carreira em pleno vigor.

4 04 2009
Marcus

Baita filme, a esnobada do ano. Se eu encontro o Clint na rua, reverenciava e depois pagava um Jack Daniels pra ele.

Quanto ao futebol, só umas ressalvas:

1- Legal os dados, tinha uns troço que não lembrava, mas eu nunca disse que o SPFC não era o time com mais títulos no Brasil. Qualquer um que acompanhe futebol de verdade e esteja um pouquinho acima do torcedor médio sabe disso. Pra quem conhece e realmente gosta de futebol (e acredito que tu seja um) essa necessidade de auto-afirmação é bem desnecessária

2- Futebol não é uma ciência exata, senão times como Corinthians, Fluminense e Atlético-MG não seriam considerados grandes pelos títulos. Muitos fatores contam pra isso, história, torcida e tal.

3- Falando em Corinthians, não são eles que detém mais títulos regionais em SP? To perguntando mesmo, eu não sei.

4- O Inter não ganhou Mercosul e o e a gente não ganhou o mundial em 95. Mas a contagem tá correta, 11 títulos que valem mesmo.

5- Quanto Grêmio X SPFC, a atual retrospectiva no confronto direto que é positiva pro time gaúcho, tanto na última Libertadores e no Brasileirão. A única derrota do SP no Morumbi no Brasileirão 2008, se não me engano, foi pra gente. =)

6- Bem de boa, Copa “Masters” Comenbol?

Mas é isso aí, o principal fato pra essa hegemonia recente do SPFC é a organização mesmo, a reestruturação do clube. Já o Grêmio, enquanto não arruma uma diretoria decente novamente, é levado pelas mãos da torcida, pela força do fator local. No berro mesmo. Exemplo: ano passado o time era ruinzinho, mas ainda assim ficou em segundo no nacional. Veremos o que acontece nos próximos capítulos… Abs!

4 04 2009
Marcus

Só corrigindo: a esnobada do Oscar esse ano.

4 04 2009
Marcus

Heheheh, isso é, é bom tirar um sarrinho mesmo. E parabéns ao segundo maior time do sul pelo centenário. =)

4 04 2009
Gustavo H.R.

Louco, absolutamente louca para ver esse que parece ser um grande filme. Ainda mais após ter visto recentemente o aludido filme de Lumet.

4 04 2009
Sérgio Déda

Adoro Clint… Gran Torino é apenas bom, Clint já fez coisa muito melhor..

Tow tentando retornar à ativa depois de um teempo heheheehe

Abraços!

7 04 2009
Andre C.

Cara, apesar de ser são paulino, você sabe realmente manter um bom blog, mas infelizmente ainda não vi Gran Torino, mas estou começando achar que preciso ver Antes Que O Diabo…. Pois, não sei se fui eu ou o que, mas não gostei do filme, porém todo mundo que leio adora… Será que merece uma segunda revisada?!

Abraços,
André C.

11 04 2009
Anderson Siqueira

Um filme de contrastes, que mostra o tempo inteiro extremos da reação humana. Trata de preconceitos, esteriótipos, tradicionalismo, afeição, família. A atuação e direção de Clint é fora de série. E o personagem principal é fenomenal. Rude, antipático, infeliz, durão e, ao mesmo tempo, dócil, sagaz, afetivo, autruísta. O roteiro tem diálogo excelentes. Chamo a atenção para duas cenas. A primeira é a que o protagonista e o padre conversam após uma trajédia na história, pela composição da cena, os detalhes, a luz, a fotografia, a conversa em si. A segunda vem logo em seguida e é a de Clint na banheira fumando um cigarro e conversando com seu cachorro. A técnica de GRAN TORINO é básica, mas executada de forma genial. As locações são simples, porém agradáveis. Um filme que encanta e seduz a plateia pela sutileza como foi estruturada a história. Cheio de implicidades, o longa mescla tradicionalismo com modernidade o tempo inteiro e quando esses extremos começam a se aglutinar, o filme torna-se espetacular. Uma surpresa e tanto.

NOTA (0 a 5): 5
*****

9 06 2009
Roberto Queiroz

Em uma palavra: apoteótico!
E agora, pra variar, ele filma Mandela.
O que aguardar desse senhor septuagenário?

18 06 2009
Anderson Siqueira

A técnica de GRAN TORINO é básica, mas executada com genialidade, o que garante um ótimo resultado final da película. As locações são simples, porém agradáveis. Um filme que encanta e seduz a plateia pela sutileza como foi estruturada a história. Cheio de implicidades, o longa mescla tradicionalismo com modernidade o tempo inteiro e quando esses extremos começam a se aglutinar, o filme torna-se espetacular. Uma surpresa e tanto.

SORO: fotografia; luz; som; Clint Eastwood; roteiro; produção; direção.

VENENO: erros de continuidade; figurino.

NOTA (0 a 5): 5
*****

4 12 2009
Retrospectiva 2009: Parte 3 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

[…] Sandro Alves APAIXONADO POR CINEMA  Cecilia Barroso CENAS DE CINEMA  Denis Torres CINEMANÍACO  Felipe Rocha INDUBITAVELMENTE  Fernando Império CINEBUTECO  Gustavo Bezerra FINA IRONIA  […]

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