A Partida (Okuribito, 2008)

22 08 2009

okuribito

Há filmes e há… filmes. Há um sopro de esperança e beleza na humanidade após filmes como esse. Não é exagero; quem assiste a esse espetáculo e não se comove está mais morto que os defuntos que o personagem principal, Daigo, cuidosamente limpa e arruma para a cerimônia de despedida.

Daigo (Masahiro Motoki) sempre sonhou em ser um grande violoncelista, por infuência do pai, porém quis o destino que sua vida tomasse um rumo inesperado. Sofrendo de uma crise existencial profunda, ele acaba se tornando um “Nokanshi”, espécie de agente funerário responsável por acondicionar os corpos e deixá-los como quando eram vivos. Detalhe: tudo isso deve ser feito em frente à família do morto, o que requer extrema precisão e habilidade, a fim de evitar constrangimento e prestar o tributo final da família ao falecido.

Tudo é feito com muita dignidade e respeito. As famílias se emocionam ao ver seu entes falecidos como eram em vida. As situações que ocorrem no aprendizado de Daigo são tristes, incomuns e, às vezes, até divertidas. Porém, sempre enriquecedoras. Apesar disso, a profissão é vista com certo preconceito por pessoas mal informadas, a ponto de Daigo envergonhar-se à princípio e esconder suas atividades da esposa.

Nesse processo de adaptação, ele acaba conhecendo mais de si mesmo, pois o confronto com a morte diariamente suscita nele o gosto da vida, além de trazer à tona certos conflitos mal resolvidos no passado. O seu mestre nesse arte de embelezamento dos corpos é o seu patrão, o engraçadíssimo e irônico Ikuei (Tsutomu Yamazaki). A sua participação enriquece o filme de maneira deliciosa. É ele também que o introduz na arte do comer bem. Infelizmente, rsrs (só assistindo o filme você entende).

Se já é difícil escrever poesia no papel, fazê-la no cinema, que é arte do movimento, sem parecer chata, redundante ou pretensiosa é para poucos. E por isso A Partida merece aplausos de pé. O seu diretor, Yojiro Takita, conseguiu fazer um filme belíssimo, que nos faz refletir sobre diversos valores. O que esperamos e queremos de nossa vida.

A cena final, a qual não posso descrever, é emocionante demais. São tantas emoções em conflito, que fica difícil não se apaixonar por essa pequena pérola e seu personagem desajustado à procura de raízes. Raízes que se foram e raízes que estão para se formar. Todo mundo morre, mas o que importa é o legado.

P.S.: Ouvi gente reclamar que A Partida é aquele tipo de filme pasteurizado, feito para agradar e ganhar prêmios. Gente, cinema é diversão também. Parem de achar que só para ter um valor artístico e cult, os filmes não podem passar perto do Oscar. A adaptação é necessária e nada do que foi apresentado no filme foi desvirtuado a ponto de parecer “fake” ou estragar a história.

Anúncios