Choke (2008)

31 01 2009

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Choke, o primeiro longa de Clark Gregg, é um filme baseado no livro homônimo do polêmico autor Chuck Palahniuk, conhecido pelo grande sucesso de seu livro Clube da Luta.

   A história é centrada em Victor Mancini (Sam Rockwell), um rapaz viciado em sexo, que tem um problema grave de relacionamento com mulheres, pois não consegue ver nelas nada além do desejo sexual. Dono de uma alta libido e incontrolável desejo, ele freqüenta reuniões de sexolátras anônimos que só servem para ele fazer mais sexo.

  Victor tem uma mãe doente (Anjelica Huston, em ótima atuação), com a qual possui uma relação pouco convencional, o que provoca diversas risadas e indica o passado conturbado de Victor. Numa de suas visitas ao hospital, se apaixona pela doutora Paige Marshall (Kelly Macdonald) pela primeira vez em sua vida. Nisso ele descobre que com Paige o seu desejo não se manifesta e toda vez que eles tentam fazer sexo, o dito cujo brocha.

     A infância de Victor é a chave para entender seu comportamento e explica de certa forma a carência que ele sente mas que nunca é devidamente preenchida. O único momento de afeto que ele se permite é quando provoca em si mesmo o ato de engasgar com comida (daí o título Choke) em restaurantes, na espera de alguém que o salve aplicando a manobra Heimlich. Nisso ele também tenta arrancar dinheiro das pessoas que o salvam para ajudar sua mãe, que está internada no hospital e cuja situação mental e física degride rapidamente.

  No meio de tudo isso Victor procura descobrir a identidade de seu pai, num inbroglio tão maluco que não dá para explicar aqui. Só posso dizer que Deus está envolvido de uma maneira impensável para muitos.

  Um dos pontos altos do filme é o relacionamento de Victor com seu amigo e colega de trabalho Denny (Brad William Henke). Ambos trabalham num parque temático sobre a América Colonial, que nunca pareceu tão divertida e depravada. Denny também é sexólatra e rouba quase todas as cenas em que aparece. Os diálogos entre os dois amigos são ótimos e super engraçados.

  Choke mexe com tabus sociais, como religião e sexo sem aquele ranço de didatismo e com uma abordagem corajosa e atual. Apesar de irregular em algumas passagens, é um filme com cérebro sobre temas ingratos e importantes. 

  Se podemos aprender alguma coisa com Victor é que sexo é bom e não deveria ser tão complicado para alguns. Afinal, uma rapidinha não faz mal a ninguém, desde que previnido, né?

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Por favor, rebobine (2008)

26 01 2009

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Rebobine, por favor, é daquelas comédias pouco vistas  e fora do padrão no cinema atual. A história gira em torno de 3 personagens:  Jerry (Jack Black), Mike (Mos Def) e Elroy Fletcher (Danny Glover), este último dono de uma locadora decadente que ainda aluga fitas VHS num prédio prestes a ser demolido.  Fletcher sai à procura de idéias de como ressuscitar e ter dinheiro para manter seu negócio. Enquanto isso, deixa seu funcionário Mike tomando conta da loja. O problema é que Mike tem como melhor amigo Jerry, e todos sabem que quando Jack Black está na área é melhor sair de baixo…

      Assim que Jack entra na loja todas as fitas são desmagnetizadas, pois o mesmo foi eletrocutado e agora é um imã ambulante. Para que o já fraco negócio de Fletcher não vá a total falência,  Jerry e Mike fazem remakes tosquíssimos e hilários dos filmes apagados e não é que eles se tornam um sucesso?  Filmes como Ghostbusters, Rush Hour 2, Rei Leão, Robocop, entre outros, são encenados pela dupla de forma impagável. Segure o riso na cadeira!

     O elenco feminino é muito bom: temos Sigourney Weaver numa participação rápida, Melonie Diaz encanta com seu jeito travesso e Mia Farrow está ótima como a meiga e doce amiga de Fletcher.

  A trilha sonora de Rebobine, Por Favor é um delírio, principalmente para quem gosta de Jazz. E quem conhece Fats Waller vai adorar toda a brincadeira feita com o lendário músico,  cuja autobiografia é refeita no filme. Clássicos como “Your Feets Too Big’, “Ain’t Misbehavin” e “I Ain’t Got Nobody’  fazem parte da educação de qualquer um que aprecie boa música.

   Porém, quem está pensando que Por Favor, Rebobine é apenas uma comédia bobinha e leve, está enganado. Nossos tempos cínicos fazem esquecer que o cinema foi e deveria ser, uma experiência coletiva.  Fica claro no filme que contar uma história é uma necessidade humana, por mais tola que seja. Todos queremos fazer parte de algo maior e sonhar é belo, mesmo que esse sonho nunca se realize. No escuro do cinema somos todos crianças à procura de nosso passado e vislumbramos nosso futuro com fé. Sim, os blockbusters e as mega-produções nos fizeram esquecer ou consumir esse sonho de forma desenfreada e quase irracional, sem nenhuma reflexão.

   O novo filme do diretor francês Michel Gongry não é nenhum quebra-cabeça como o belíssimo filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, mas ele é encantador pela sua simplicidade, pela produção modesta que é e pela química entre os atores, todos em casa. É aquele tipo de filme que certos atores até deveriam abrir mão do cachê, pois fica evidente como muitos deles estão à vontade e felizes por participarem de algo tão leve e divertido.  A cena final é emocionante e serve como exemplo para que todos não se esqueçam de saborear os momentos simples e preciosos que tem se tornado tão raros.

(Publicado originalmente em 29/09/08 no blog Hollywoodiano, do meu colega Otávio)





Um lance no escuro (1975)

16 01 2009

Resgatando a memória do bom cinema americano, venho partilhar esta semana com vocês o filme Um Lance no Escuro, uma pérola esquecida por muitos, inclusive lá fora, pois não fez muito sucesso na época de seu lançamento. 

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 Dirigido pelo grande Arthur Penn ( Bonnie e Clyde, O Pequeno Grande Homem) e estrelado por Gene Hackman, que interpreta aqui o detetive particular Harry Moseby, contratado por uma atriz hollywoodiana decadente para investigar o desaparecimento de sua filha, Delly Grastner (Melanie Griffith, com cara de bebê, em um de seus primeiros papéis, só reconhecível pela sua famosa voz estridente). Enquanto procura pistas, Harry Moseby está passando por uma crise existencial em seu casamento. Acostumado a tirar fotos e investigar casos de traição, acaba descobrindo que sua própria esposa o está traindo!

Não sabendo muito bem lidar com essa situação, pois desta vez é no plano pessoal, o detetive se afunda cada vez mais na nova investigação, como forma de fuga. As pistas sobre a garota desaparecida levam o detetive a viajar até a Flórida, lugar onde a história se complica e toma nuances cada vez mais interessantes. A partir daí não dá pra revelar mais nada, sob o risco de estragar a apreciação de quem não viu o filme. O que posso dizer é que o detetive acaba tendo um caso com outra mulher e descobre que o fundo do buraco é mais embaixo.

O final é surpreendente e vale o filme por si só. A interpretação de Hackman é extraordinária, pois ele passa toda a angústia do personagem sem precisar abrir a boca. Desde o começo você já percebe que se trata de um filme diferente, pois as pessoas da história são multifacetadas e não tem aquele negócio de bonzinho x malvado, além da ênfase ser dada tanto na ação como na parte psicológica . A atmosfera do filme é suja, coisa que havia de sobra nesses bons filmes dos anos 70 e que não se encontra muito nos filmes “politicamente corretos” de hoje em dia.

Dica:  Preste atenção nos diálogos banais dos 15 minutos iniciais do filme, pois eles são a chave para se entender o mistério que só se revelará no final.





Cada um vive como quer (1970)

15 01 2009

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Cada um Vive Como Quer (Five Easy Pieces, 1970) é um dos filmes marcantes da contracultura – tão em voga no início da década de 70. É também um veículo feito sob medida para Jack Nicholson, que consolidou sua carreira como megastar e também a imagem de rebelde, sendo indicado ao Oscar de Melhor Ator pelo papel.

Feito um ano após Easy Rider, que é o ícone máximo desse movimento, Cada um Vive Como Quer foi definitivo para o amadurecimento de Jack Nicholson como ator – sendo o seu primeiro papel realmente sério e importante. Em Easy Rider, ele está solto e descontraído, já em Cada um Vive Como Quer, seu personagem é mais centrado e complicado. Analisando a partir da persona de Nicholson, o filme atua como uma ponte entre Easy Rider e Um Estranho no Ninho, clássico de Milos Forman em que ele atinge a sua expressão máxima como ator, com uma desenvoltura que poucos conseguiriam usar para representar o tipo louco, cínico e rebelde, mas sem jamais perder o charme.

A história gira em torno de Robert E. Dupea (Nicholson), pianista de talento, de família abastada, que largou sua vocação e foi trabalhar como peão num campo de petróleo. Sem falar com o pai há anos, Dupea é um homem que ainda não encontrou um lugar ao sol, sempre inconformado com as regras e convenções da sociedade, e que as desafia inutilmente, prejudicando cada vez mais a sua vida e as pessoas de seu círculo.

Uma das cenas mais famosas do filme é quando Dupea vai a um diner, típico bar e restaurante americano de beira de estrada, e briga com uma garçonete que não consegue atender ao seu pedido. É hilário!

Cada um Vive Como Quer foi o primeiro filme de uma suposta trilogia desconexa, toda dirigida por Bob Rafelson e estrelada por Nicholson (os trabalhos seguintes foram O Dia dos Loucos e Sangue e Vinho). Cada um Vive Como Quer é disparado o melhor dos três, porém vale a pena dar uma olhada em Sangue e Vinho, afinal possui uma história interessante e reúne dois grandes atores que jamais haviam trabalhado juntos: Jack Nicholson e Michael Caine.





Quadrophenia (1979)

15 01 2009

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Quadrophenia, o filme,  é baseado “levemente” (em termos de história) no álbum de ópera-rock homônimo da banda The Who, cuja participação dessa vez foi apenas na orientação musical do filme, ao contrário de Tommy, onde os integrantes da banda e vários convidados atuaram.  Mesmo assim, Quadrophenia, tal como a obra musical da banda The Who, é um  daqueles raros filmes despretensiosos que conseguem captar com fidelidade a energia e o estado de espírito de uma época particular. Nesse caso estamos falando da Inglaterra dos anos 60, quando a moda juvenil e estilo de vida era ser um Mod, gangue adepta do rock e R&B britânico (principalmente The Who, Smallfaces e The Yardbirds), cabelo curto, terninho justo e cujo meio de transporte eram as scooters, geralmente lambretas ou vespas enfeitadas e cheias de retrovisores. O motivo de tantos retrovisores era devido a uma nova imposição da lei britânica, que exigia ao menos 1 retrovisor, sendo assim os mods zombaram da nova lei e haviam scooters que possuíam até 32 retrovisores!   Já o outro lado, totalmente oposto e rival, chamado de rockers, dirigiam motos potentes e usavam jaquetas de couro e visual mais largado, além de apreciar mais o estilo americano. Eram frequentes as brigas e encontros em balneários londrinos, sendo o mais famoso Brighton, cuja principal encontro deste tipo é representado no final do filme, onde destruição e caos são a palavra de ordem, causando pânico nos londrinos e muito trabalho para a polícia. Os mods eram grandes  consumidores de anfetaminas e tinham um estilo muito próprio de dança, geralmente se encontravam em pubs famosos na época como Goldhawk e Marquee Club.

 O personagem principal do filme, o problemático Jimmy, é interpretado por Phil Daniels e através dele e de suas ações vamos conhecendo o mundo particular dos mods e rockers.

   Jimmy trabalha na parte da manhã como uma espécie de office boy interno e é um rebelde por excelência, tem raiva de tudo, do seu serviço, dos seus pais e principalmente de seus amigos! Ele chega a causar tantos problemas que é posto para fora de casa pela própria mãe. Além disso, tem um relacionamento amoroso mal correspondido com Steph ( Leslie Ash), que desperta nele uma angústia extrema. Um dos diálogos mais interessantes é quando ele encontra um antigo amigo de colégio, Kev, que agora é um rocker, e diz o seguinte:

Jimmy: Ei, eu nunca percebi.
Kev: Nunca percebeu o quê?
Jimmy: Que você é um rocker.
Kev: Como assim, eu sou negro ou o quê?

Jimmy: Bem, você não pode ser considerado branco usando essa roupa, não é mesmo?

   Esse dialógo representa justamente como era a vida desses jovens rebeldes, cujo estilo de vida era ser ou não ser, não havia meio-termo. O pensamento dos mods era aproveitar a vida ao máximo, a sua filosofia é que o importante é o agora, pois amanhã podemos estar mortos.  Uma das curiosidades do filme também é a primeira aparição cinematográfica do cantor Sting, que interpreta um símbolo por excelência de como ser o perfeito mod,  bonitão e cobiçado pelas garotas. Jimmy descobre ao longo do filme que o mesmo não passa de um mensageiro de hotel e essa cena é ao mesmo tempo engraçada e desesperadora, pois Jimmy entra em parafuso, pois já estava abalado por ter “perdido” sua garota para um amigo, ter sido expulso de casa e brigado com seu chefe e pedido demissão. E como desgraça pouca é bobagem, ele ainda se envolve num acidente de trânsito e sua scooter é destruída.  Após tudo isso, ele acaba roubando a linda scootter de Sting e sai desnorteado em direção a um desfiladeiro, ao som da bela Love, Reig O´er Me, do The Who.

  Chegando ao final do filme temos uma pequena polêmica: Jimmy morre ou não morre? Pois tudo indica que sua insatisfação com o estado das coisas faz o levar ao suicídio, se jogando do desfiladeiro. O final é aberto, pois não vemos corpo nenhum e apenas a scooter despencando de encontro às rochas.

  Eu prefiro pensar o final como uma metáfora onde na verdade o que morre é o estilo de vida de Jimmy, representado pela scooter destruída em vários pedaços. Ali Jimmy se encontrava num labirinto emocional e só se desprendendo de certas coisas é que ele poderia repensar e viver uma nova vida.